Uma tragédia carioca
Apontado como um dos mais promissores dramaturgos contemporâneos brasileiros, Diogo Liberano, de 26 anos, retorna ao Festival de Curitiba com “Concreto Armado”, seu quinto trabalho à frente da sua companhia, o Teatro Inominável, do Rio de Janeiro. No espetáculo que estreia nacionalmente na Mostra 2014, uma professora de Arquitetura e Urbanismo, acompanhada por seus alunos de pós-graduação, inicia uma pesquisa sobre Preservação e Restauração do Patrimônio Edificado em um Maracanã em obras, durante os preparativos para a Copa do Mundo.
À medida que se intensifica a investigação sobre a arquitetura de um dos principais símbolos do futebol brasileiro, crescem também, refletidos na vivência dos personagens em cena, os dramas sociais, econômicos e de violência ligados ao embelezamento do estádio às vésperas do campeonato internacional. Está dado, assim, o pano de fundo de “Concreto Armado”, uma peça que não versa sobre a Copa ou sobre futebol, mas sobre os dramas humanos que eclodem a partir deste contexto, envolvidos no texto lírico e vigoro de Liberano.
Com a montagem, o autor e diretor entregam mais uma de suas tragédias cariocas, aos moldes de seus dois trabalhos anteriores: “Maravilhoso”, espetáculo com dramaturgia assinada por ele e dirigido por Inez Viana que estreou no Festival de Curitiba do ano passado, e “Sinfonia Sonho”, peça de 2012 do Teatro Inominável. Esta última tem como ponto de partida o romance “Precisamos Falar sobre Kevin”, de Lionel Shriver, e o massacre de Realengo, ocorrido no Rio de Janeiro.
Foi a partir do atentado ocorrido na escola de Realengo que Liberano percebeu a necessidade de tratar daquilo que acontecia na sua cidade. “Ali nasceu a vontade de falar sobre as forças que desencadeiam estragos imprevisíveis e sobre como chegamos a uma sociedade que se diz democrática, mas que não sabe praticar tal democracia”, comenta. “’Concreto Armado’, de alguma maneira, é sobre isso, mas, principalmente, sobre educação e os fundamentos de uma sociedade, um questionamento sobre o ponto ao qual chegamos”, revela.
A impossibilidade de não ver as coisas
A dramaturgia é assinada pelo diretor em parceria com Keli Freitas. É a primeira vez que ele divide esta tarefa. O processo de construção do texto mescla referências dos autores, atores e envolvidos na produção. “Absorvemos isso para dar o mote da peça, que trata da impossibilidade de não ver as coisas que acontecem todos os dias. Ao longo do processo de criação, saímos às ruas e promovemos ações performáticas que depois trouxemos para a sede da companhia”, conta Liberano. “Isso para falar de vida, do Rio de Janeiro, do Brasil dentro de uma ficção que, talvez, não queira chamar a atenção para o espetacular dos assuntos relacionados à Copa, mas daquilo que está na base do que estamos vendo acontecer”, explica.
Para o diretor, o Maracanã, neste sentido, é o elemento símbolo da “reificação carioca”, isto é, um produto acabado e idolatrado que esconde, na sua base, diversas dinâmicas sociais e econômicas opressivas que desfiguram a democracia e agridem os direitos humanos. “Podemos fingir que, ao contemplá-lo, nada disso importa. Mas o Maracanã sintetiza uma estrutura social que está calcada nesta ideia. O Rio, por suas belezas, só funciona no cartão postal e a vida da cidade não o acompanha. É um duelo injusto que se pretende fazer visível no espetáculo”, diz. Não à toa, a peça se chama “Concreto Armado”, um tipo de concreto que reúne vários componentes para que dê sustentação a edifícios e arquibancadas.
CONCRETO ARMADO
Teatro Paiol
Dias 26 e 27 de março – 21h
www.festivaldecuritiba.com.br/ imprensa
Ficha técnica:
Teatro Inominável – Concreto Armado (Rio de Janeiro/RJ)
Direção: Diogo Liberano
Dramaturgia: Diogo Liberano e Keli Freitas
Elenco: Adassa Martins, Andrêas Gatto, Caroline Helena, Flávia Naves, Gunnar Borges, Marina Vianna e Natássia Vello
Direção musical: Luciano Corrêa
Cenário: Elsa Romero
Figurinos: Maria Dalgalarrondo
Iluminação: Renato Machado
Produção: Dani Carvalho e Tamires Nascimento
Realização: Teatro Inominável
Duração: 85 minutos
Fonte: 23. º Festival de Curitiba
Assessoria de Imprensa
Adriane Perin
Foto: Paula Kossatz

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